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Fogos de artifício

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A grande explosão

A GRANDE EXPLOSÃO

(Geraldo Maciel)

Para Wellington Pereira

Cipriano Mamede era um homem rico, orgulhoso e triste. Havia sido pobre na juventude, mas disso esqueceu. Evoluiu da condição de pobre à de homem rico e juiz de paz graças aos seus dotes morais, que as pessoas supunham existirem, e a outros motivos, estes bem mais significativos, ligados à sorte. Não se deve esquecer o fato de que quando se é rico, muitos atributos vão sendo agregados à pessoa como uma coisa natural.

Não se sabia o que ele fez para possuir a tal fortuna que diziam ter, mas certas pessoas ousavam dizer que sua fortuna não era tão grande assim. O que a tornava grande era a pobreza dos demais. Independente disso, era fato que comprou, vendeu, agiu e economizou com um pouco mais de sagacidade e aptidão que os outros. 

 

Começou a vida como aprendiz de fogueteiro. Algum tempo depois, já era comerciante de fogos, e daí passou ao comércio de secos e molhados, até chegar à condição de dono de muitas terras, gado e gente.

A deusa da fortuna parecia soprar na sua nuca: casou com uma moça que possuía bens herdados, suas vacas pariam mais que as de todo mundo, e a sorte mostrou-lhe uma botija nos escombros de sua casa da fazenda. Se isto era verdade ou não, não há como provar. O que se sabe é que ele era dono das terras, das águas, da estima, do respeito, do medo e da subserviência que a maioria das
3 devota a quem tem mais.

 

Tornou-se orgulhoso e soberbo ao extremo, como é natural nas pessoas ricas, mas era um homem triste. Tinho grandes defeitos, dentre eles dois se destacavam: um defeito físico, o desvio na coluna, e um defeito moral, o orgulho. Lordose e soberba, juntas. E os dois defeitos faziam com que olhasse de cima os pobres e pequenos do lugar e vivesse fungando os ares como se estivesse sempre olhando o tempo ou afrontando as nuvens.


Claro que um homem importante, rico e grave como ele não podia ser dado a efusões e alegrias escancaradas. Mas escondia sob a capa da gravidade duas tristezas nunca reveladas nem à sua mulher: não sabia ler e nunca tinha sido prefeito. Mas, como todo ser humano, tinha uma grande paixão: ouvir estrondos, estampidos, explosões e sentir o consequente e leve cheiro de pólvora no ar. Não havia sido fogueteiro impunemente. Gostava de fogos de artifícios, roqueiras, bacamartes, bombas, granadas, canhões, dinamites e tudo que guardasse explosões em sua natureza.

 

Bastava um feriado, um dia santo, uma boa chuva, º lá se iam os tímpanos dos desavisados, pois Cipriano despejava suas bombas; um batizado na família, um casamento entre os parentes, uma vaca parida ou telegrama de um chefe político, e lá vinham as bombas de Cipriano. 


Era a maior autoridade daquela vila - que não era ainda cidade por conta da inveja e da má vontade dos políticos e do povo de Grotas -, mas seu poder era pequeno, limitado, sem representação. Ele não era uma autoridade constituída.

Não tinha um título que pudesse enfeitar seu a antes de ser pronunciado. Juiz de paz era, na verdade, uma porcaria, não decidia nada, não mandava em nada, não julgava nada. Uma honraria sem futuro, logo, não o nada. E isto ele não podia esconder ou disfarçar, como fazia com o fato de não saber ler e escrever, problema que ele resolveu de dois modos. Conseguiu que a professora do município escrevesse seu nome em um papel e, de posse dele, treinou tantas e tantas noites, escondido, à luz de velas, que agora desenhava seu nome com perfeição. Tão bem feita era sua assinatura que muitos o julgavam um homem de letras. Quanto à leitura, ele disfarçava alegando que já não conseguia ler por conta de seus óculos que andavam a pedir outros novos e com lentes renovadas, mas que seu pouco tempo nunca permitia que as trocasse.

Seu poder era limitado àquele grande aglomerado de casas, que não era cidade ainda, embora tivesse condição para tanto. Participava de conchavos políticos, mas não mandava muito. O poder político regulava fora de seus domínios, na cidade maior, Grotas. Já tinha sido eleito vereador, cargo que também nada acrescentava ao gosto de mando de uma pessoa.

 

Por isso, lutou pela emancipação políticia do seu município com afinco, durante anos. Lutou e conseguiu. Sua comunidade, finalmente fora alçada à condição de cidade e não mais seria humilhada pelo povo de Grotas, e ele, como prêmio por sua luta e reconhecimento de seu prestígio, seria eleito prefeito.
 

Bancou as festas como se tudo aquilo fosse uma grande farra de apartação de gado, e no meio dela veio-lhe a ideia de, como era de se esperar, fazer uma bomba para comemorar o evento. Mas não seria uma bombinha qualquer. Seria a bomba da sua vida. Tanto que não à encomendou a nenhum mestre fogueteiro conhecido, coisa que por tradição havia muitos na região. Ele mesmo faria a bomba.

Os moradores da vila souberam da decisão de seu chefe e, como tudo que ele queria era lei, aprovaram mais essa sua vontade. E esperaram, pacientes, mais uma barragem de artilharia que arrebentaria os tímpanos de todos e amedrontaria meninos e cachorros.

E Cipriano fez a bomba. Era grande, redonda, enorme, bojuda, prenhe de estrondos, uma bomba atômica, quase. E não poderia ser diferente. O estrondo teria que ser enorme, teria que ser ouvido em Grotas e arrebentar os brios e os ouvidos daquele povinho pretensioso e metido a besta. 

 

E tão grande e bela bomba mereceu desfile pelas ruas da vila, e daí até o Alto Branco, elevação que dominava a cidade ao leste. Colocada no alto do morro, e tomadas as precauções de distância para que ninguém saísse ferido, foi acesa a mecha. O estopim tinha quase duzentos metros de
comprimento, e isto daria tempo para que os responsáveis pela operação chegassem a um lugar seguro. Aceso o rastilho, começa a correria em busca de abrigo, enquanto o estopim vai sendo comido pela labareda nervosa.

Um foguetão foi aceso para dar o sinal de que o estopim começara a queimar. Na cidade o silêncio, os ouvidos tapados, a respiração presa. Nessas horas os ponteiros cochilam, o vento corre com preguiça, e até o barulho se recolhe. E nada da bomba explodir. E vão passando os segundos, os minutos e neste tempo já o rastilho deve ter sido consumido ou falhado no caminho ou calculamos mal o tempo da queima, e a bomba e explodiu e não houve quem quisesse se ariscar a pois (e) que houve. O fato é que por um motivo desconhecido a bomba não explodiu.

Muitos, com medo do estrondo, só destaparam os ouvidos três dias depois. Quando todos tiveram certeza de que a bomba gorara, não explodiria mais, baixou um silêncio incômodo e pesado sobre o povoado, como se à vida tivesse entrado por outro trilho e as pessoas tivessem ficado sem assunto durante muito tempo. Os namorados ficaram sem inspiração, os casais limitaram-se a dormir e as pessoas só começaram a trocar algumas palavras uma semana depois do ocorrido ou do não-ocorrido.

O respeito, o temor e o medo das pessoas não deixaram que se fizesse qualquer alusão ao terrível fracasso da explosão vingadora. Era o peso da autoridade de Cipriano. A maioria calava por medo, uma boa parte por respeito, e outro tanto por subserviência. O fato é que a cidade conviveu com o silêncio durante quase um ano e, nesse tempo, jamais alguém ousou fazer qualquer ruído ou barulho que pudesse lembrar a explosão de uma bomba nos limites do município.

Quando Cipriano foi eleito prefeito, quase não houve festa. À banda tocou, mas o bumbo, as caixas e os taróis foram eliminados. Não houve discursos, nem fogos de artifício. E, como decorrência, muitos evitavam soltar gases com medo de um som mais alto pudesse despertar a ira do chefe. Nem bolas de sopro eram usadas nos aniversários por medo de que algum cismasse de estourar durante a festa e o inadivertido estouro pudesse lembrar o terrível fracasso.

No dia da posse, Cipriano teve um infarto, desses que não deixam o acometido sequer dizer um ai, e morreu antes de assinar o livro. Logo agora que ele ia realizar um de seus sonhos, depois de ter decorado o discurso do da posse e treinado a assinatura que de tão pouco uso já andava  falhando aqui e acolá! Mas já não havia o que fazer.

 

O silêncio do velório era só uma extensão do silêncio da cidade. Nem choro convulso havia, pois era viúvo a algum tempo e não deixava herdeiros a quem competia chorar nessas horas. À parentela distante, quando soube; do ocorrido, não encontrou motivos para tal demonstração. A mulher que tomava conta de sua casa calada estava calada ficou, e assim não permitiu que ninguém fizesse interpretação do que sentia.

O enterro foi feito segundo as regras. Como o velho gostava de banda de música quando era vivo, teve banda de música no cortejo fúnebre, mas sem os bumbos, caixas e taróis. E aquela música estranha, lenta e triste, marcava o compasso das passadas da comitiva a caminho do cemitério.

À beira da cova, a banda parou de tocar a marcha fúnebre, enquanto o coveiro tentava acomodar o caixão na exiguidade do buraco que cavara. Quando a banda dá o último acorde da marcha e alguém joga o primeiro punhado de terra sobre o caixão, uma enorme explosão faz a tem tremer. À grande bomba, depois de tanto tempo, explodira.

 

O ruído arrebentou tímpanos, quebrou vidraças; a corrente de ar que se formou destelhou casas, arrancou chapéus e desfolhou árvores. As pessoas se entreolharam assombradas com tamanho estampido e com a chuva pedriscos e poeira que chegou alguns minutos depois.

 

Alguém, no meio daquela confusão, gritou: a bomba estourou! A frase era tão desnecessária que ninguém ouviu. Correram todos para fora do cemitério e esqueceram o cadáver de Cipriano dentro da cova aberta.

Quando passou a chuva de pedriscos, e a poeira começou a assentar, as pessoas se entreolharam como se aquilo fosse um aviso. E como se tudo tivesse sido combinado, a banda começou a tocar o frevo “Evocação número um” de Nelson Ferreira. Ali mesmo começou uma comemoração que tomou as ruas e durou duas semanas. Gritos, apitos, estampidos, flatos, bolas de sopro, tudo valia e tudo agora era permitido. Tomaram cerveja e cachaça, e logo se formou um corso onde apareceram conferes, serpentinas e até lança-perfume. Em instantes já havia fantasias improvisadas, blocos de sujos e esmolambados, a ala dos pobres, o cordão dos remediados e roda a sorte de agremiação que nestas horas sempre aparece.

No cemitério, Cipriano permaneceu insepulto por alguns dias. Enquanto seu rosto começava a ser deformado pelos vermes, já não se notava o seu antigo orgulho, nem o ar arrebitado dos que têm as coisas, mas persistia nos seus olhos, ainda misteriosamente abertos, a grande tristeza dos analfabetos.
 

 


 

 


 

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