"Assim, convido o leitor a se sentir também nessa casa de fantasia "
(Nivaldete Ferreira)

O amor é quase eterno
O AMOR É QUASE ETERNO
Para João Batista de Brito
A senhora de luto atravessou a rua com uma expressão no rosto que devia traduzir dor pela morte recente de algum ente muito querido. O luto e a expressão do rosto lhe davam uma altivez e determinação que, em certos
momentos, pareciam incompatíveis com alguém que tivesse sofrido tal choque, pelo visto, há tão pouco tempo. E foi com esta altivez e determinação que ela entrou na oficina do escultor de santos e, depois de cumprimentá-lo com um breve aceno de cabeça, fez a encomenda:
— Quero que o senhor me faça, em madeira de boa qualidade, uma estátua de corpo inteiro do meu marido, falecido há pouco.
Antes que o escultor pudesse perguntar qualquer
coisa, ela continuou:
— Trouxe alguns retratos dele e o último terno que usou em vida, para que o senhor possa tomar as medidas do que foi seu corpo.
Acertaram preço e prazo de entrega, e não faltaram
as recomendações sobre certos cuidados na embalagem e
no transporte para evitar pôr estragos naquilo que a
esperança da mulher e a arte do mestre prometiam ser uma .
obra-prima.
A senhora então voltou para sua casa, para sua casa, sua saudade e para sua vida. Voltou com a mesma gravidade nas feições e a mesma circunspeção, mas, com um leve ar na face, um escondido brilho nos olhos, uma respiração de quem não havia permitido que a tristeza se apossasse completamente dela.
À sua casa era espaçosa, com um pequeno jardim na parte da frente e um generoso quintal na parte de trás, e abrigava muitos pássaros atraídos pelas frutas e pela água que seu marido, quando era vivo, provia em abundância, em cada tronco ou galho de árvore. Ele gostava de Pássaros. Ficava horas e horas no terraço da frente da Casa ou ”terraço que dá para o quintal a observar seus passarinhos, munido de um binóculo.
Com a morte do marido, a senhora caiu numa profunda melancolia e esqueceu-se completamente dos passarinhos do finado. Não fosse a empregada ter continuado a os abastecer de comida e água, eles talvez até
tivessem abandonado, também, aquela casa. Passada a tristeza e o desconsolo, inevitavelmente renovados pela missa de sétimo dia, ela lentamente foi recobrando o ânimo, afastando o abatimento ostensivo e, como acontece com todas as pessoas, passou a cultivar a saudade muito mais do que o sofrimento.
Essas coisas muito pessoais, íntimas, mesmo transparecendo para terceiros o que machuca por dentro, nunca deixam de ser interiores, e lá quase nenhum estranho chega. Nela era assim que essas coisas aconteciam. Quanto ao resto, ela cuidou para que voltasse ao normal o e rápido possível. Não permitiu que a casa caísse no desleixo, que o seu trivial da mesa fosse relaxado, nem ao menos mudou sua disposição e arranjo: todo dia lá estavam os pratos e talheres arrumados, os do finado na cabeceira da mesa, e os a ela reservados à sua esquerda. E ela lá sentava e comia, e em alguns momentos até tentava servir mais um pouco de comida ao marido, suspendendo o gesto no meio do caminho ao se dar conta de que agora ela almoçava com uma lembrança. Até o cozido, quase um ato religioso-culinário em sua casa nos dias de sábado, ela continuou a servir, apesar de não gostar muito daquele prato tão pesado, mas que seu marido tanto apreciava.
O esmero das roupas que vestia não afetava a simplicidade da sua aparência bem cuidada, e tal esmero ela continuou a cultivar, agora com um pouco mais de recolhimento na composição e a perceptível mudança de tonalidade dos trajes.
E como a vida tem que continuar, ela mesma convocou as amigas para retomarem, mesmo que agora de uma forma um pouco diferente, a convivência interrompida, e reatarem certos hábitos de convivência, as conversas do fim de tarde, as idas à missa e certas atividades sociais que sempre faziam de bom grado. Essas coisas faziam bem e alteravam a rotina de conviver com a saudade e a perda, que formam um vácuo ao redor das pessoas que delas sofrem, como ela bem sabia.
Aquela senhora, de nome Cesária, era diretora do ensino primário no município e, pelo menos até morrer, seu marido ocupava o cargo de agente fiscal do Estado, E que os colocava entre os bem aquinhoados do E Então a morte, talvez invejosa de tal harmonia e qual felicidade, achou de vir, de brusca e inadvertida maneira, intrometer-se. E cuidou de meter a colher na parte mais fraca, o marido. Aproveitou-se de certos descuidos na sua coida, de certa preguiça que o levava a passar mais tempo deitado do que andando ou fazendo o corpo suar; não esqueceu também que, como agente fiscal, ele tinha uma vida sedentária, para não dizer preguiçosa, e o maior esforço fisísico dele exigido era colocar um carimbo numa nota fiscal . E num belo dia, belo no sentido de ser um dia de sol, com muitos passarinhos cantando nas árvores e um vento fresco correndo ainda com cheiro de madrugada, entre o belo cantar de um canário e o trinado de um galo de campina, durante uma risada, uma daquelas suas caudalosas risadas, mostrou-se um tal estupor em suas faces, avolumou-se uma tal quantidade de sangue em suas veias que se lhe estourou um fino tubo, ou rompeu-se um tênue dique, lá nos meandros de sua cabeça, e ele se foi, ainda com o riso no semblante e sem dizer adeus.
A morte repentina do marido, porém, não a deixou desprotegida como acontece a muitas mulheres vida afora. A pensão deixada pelo falecido iria permitir uma vida folgada; do ponto de vista financeiro, até melhor do a que tinha antes, pois não teria mais despesas com ternos, sapatos, lances exibicionistas em leilões, além de outras despesas que o marido fazia e das quais ela não tinha notícia.
Foi aí que, pela primeira vez, Cesária conheceu a dor. Antes havia sofrido com a morte dos seus pais, mas à morte deles, por serem velhinhos, era coisa esperada e aceita. Desgostos, transtornos, dissabores, mal-entendidos, essa coisas ela as conhecia. Todo vivente as conhece. A dor, porém, punhal fino entrando na carne e paralisando a respiração, ela não conhecia. E chegou a pensar que não iria resistir. Mas essas coisas todos os sofredores pensam, e desse abismo quase todo mundo sai. Machucado, mas sai.
A dor é uma roupa de baixo e, sendo assim, os outros nunca a vêem e por isso pouco podem ajudar. Mesmo assim, é bom que os amigos fiquem por perto, que riam sem estardalhaço, que vivam como se não tivesse havido morte, que isto já é um desmesurado consolo e uma maior solidariedade. E parece que foi assim que entenderam as amigas de Cesária. E isso mesmo fizeram, pois agiam como se a morte do marido da amiga fosse coisa de longínquo passado, e a dor fosse parenta próxima de uma distante saudade. Ela gostava que assim fosse e até exigia isso sem dizer palavras. Afinal, só ela tinha o direito de estabelecer a largura e a profundidade da sua dor. Só ela poderia saber qual a profundidade do poço em que havia mergulhado.
Como forma de não ser engalfinhada pela saudade, impusera-se uma rotina idêntica à que tinha quando o marido era vivo.
De manhã, levantava-se depois das orações e compunha-se. Guarda-roupa, cômoda e toucador. Um pouco mais tarde, sentava à mesa para o café. Depois, regava umas plantas, colhia algumas flores, enchia uns vasos. Em seguida, sentava na varanda, onde tricotava até chegar a hora
do almoço; depois, lia um pouco e passava em revista o
trabalho da empregada.
À tarde visitava as muitas lembranças do marido espalhadas pela casa e, perto das cinco, recebia as amigas para um chá e conversas. Quando as amigas se iam, era quase hora do jantar, e ela comia frugalmente. À noite, lia um livro de orações e aprontava-se para dormir. Essa era sua rotina,
á até que chegou a encomenda, a estátua do marido.
Finalmente, a estátua chegou, muito bem protegida e embalada, tudo de acordo com as recomendações e o combinado. Foi posta no centro da sala e ali desembrulhada. Os poucos que assistiram àquilo se quedaram pasmos com a arte do escultor. Ela, a esposa, ao ver a estátua, ficou pálida, sentiu rápida tontura e, por uma fração de minuto, imaginou, ou pecaminosamente quis, que seu marido estivesse vivo, ressuscitado, ali na sua frente. Era perfeita. Não deixava de ter a rigidez e o ar das estátuas, mas uma vez aceitas estas limitações, era uma obra-prima.
Tanto era assim que toda a cidade logo ficou sabendo e acudiu à casa para ver o quase ressuscitado pelas mãos do artista. E, como havia acontecido na morte, toda a cidade passou novamente pela sala da viúva para admirar seu marido ali em pé, trajando um terno de esmerada elegância, olhando a todos com um olho mais vivo do que tinha em vida. E essa assistência obrigou a viúva a ficar postada ao lado da estátua, como acontecera no velório, ao lado do defunto, a receber cumprimentos de parabéns do povo da cidade.
Ao fim do dia, a cidade havia conhecido a estátua do marido da viúva, e o que era para ser considerado loucura, esquisitice ou idiossincrasia foi considerado prova de amor. Achavam que uma estátua era só mais que um retrato, era um retrato em três e bem maiores dimensões. À noite, quando muitos na cidade ainda comentavam sobre aquela lembrança de tão grandes proporções, à viúva, ajudada pela empregada, levou a estátua para o quarto. Colocou-a numa posição próxima à cômoda, de onde podia ser observada, mesmo por quem estivesse deitado na cama quase em frente.
A viúva vestiu-se com roupas de dormir e colocou discretos perfumes, parecendo até que reproduzia sua rotina de tempos atrás, e após alisar discretamente uma mecha de cabelo, voltou-se e deu dois passos em direção à estátua, enlaçou-a pela cintura com um braço, tocou-lhe o rosto com a outra mão e, como se repetisse uma cena há muito desejada, beijou os lábios da estátua durante um tempo que relógio nenhum ousaria marcar. Pareceu-lhe até que aqueles lábios estavam quentes e molhados, e durante uma fração de segundo teve a sensação de sentir dois braços a cingir-lhe a cintura.
Quando desfez o abraço, lágrimas umedeciam seus olhos, e uma saudade pesada e irresistível a fez abraçar-se a si própria enquanto se olhava no espelho. Aquela sensação de dor, de perda, de solidão, ela sentia todas as noites, hoje, porém, havia sido mais dolorosa. Caiu de bruços sobre a cama e chorou. Chorou até que o cansaço carregou-a para um sono muito pesado e não permitiu que ela sonhasse naquela noite.
Quando acordou, olhou para o espelho e não viu a estátua. Assustada, fez um movimento para levantar e notou que ela estava deitada ao seu lado. Não lembrava de tê-la colocado na cama. Estranhou, mas imaginou que na emoção da noite anterior que fizera aquilo sem perceber. Então voltou a recostar-se no travesseiro, virou-se para a estátua, a que, de papo pro ar, parecia dormir, beijou-lhe a testa, e como fazia todos os dias quando seu marido era vivo, lhe disse:
-Bom dia, meu amor!
Ao contrário do que fazia todos os dias, o marido não lhe respondeu. Ela então levantou-se e, após os rituais dessas horas da manhã, saiu do quarto para retomar a sua rotina. Estava mais leve e quase sorridente.
E as coisas foram retomando sua rotina à medida que a estátua ia se tornando um membro da família como havia sido aquele que ela representava. A empregada cuidava da casa, e ela cuidava do marido, ou da estátua do marido, trocando seus ternos duas vezes por semana. Até gravatas modernas encomendou, para não desvirtuar a elegância do marido.
Assim, de manhã cuidava do marido e à tarde tomava chá com as amigas. Liam revistas que falavam de gente famosa, de roupas elegantes, de águas de-colônia e de sapatos finos. Olhavam mostruários, catálogos que um vendedor trazia para sua consulta e compra. Estes gostos, antes de representarem um indício de futilidade, eram medidas do quanto essas senhoras apreciavam a elegância e o conforto. Para a viúva, então, era também uma forma de igualar-se em elegância aos ternos que o marido trajava.
Numa dessas tardes de conversas e de consultas aos catálogos, apareceu um novo vendedor, um caixeiro viajante de olhos negros e pouco mais de trinta anos, que substituiu o antigo vendedor, que resolvera aposentar-se. Chegando de última hora, trazia às suas freguesas as revistas, as amostras,
as fotos e os catálogos recheados da última moda.
E assim o tempo foi passando, com ela durante o dia cuidando das rotinas e à noite beijando os lábios da estátua, ali deitada ao seu lado. Isto, porém, só durou alguns meses, pois ela andou uns tempos tendo pesadelos e se chocando com a estátua, devido a sua Movimentação exagerada enquanto dormia. Ao tocar na estátua acordava e em alguns casos chegava a se machucar. Foi assim e por este motivo que a estátua voltou a ficar de pé, ao lado do espelho, muito embora ela continuasse a lhe beijar o rosto antes de dormir, coisa que quase nunca esquecia de fazer.
O vendedor, na sua rota mensal, visitava as freguesas, discretamente anotava os pedidos com uma letra parecida com a de escrevente de cartório e, dai a um mês, mais ou menos, trazia as encomendas, ocasião em que mostrava novos catálogos, os lançamentos recentes, as últimas novidades.
Desde a primeira visita, ela sentiu que o olhar do vendedor a incomodava. Não que fosse desrespeitoso ou provocativo, ao contrário, era suave e discreto, e talvez fosse exatamente por isso que tanto à incomodava. Pousava em sua pele como uma dessas plumas que flutuam à deriva pelos ares e deixava sobre ela quase um calor, lembrança de umidades. Até coçava, horas depois, quando ele já tinha ido embora, e ela ao seu quarto já havia se recolhido.
A empregada, que em tudo e em todos punha reparo, reclamou da estátua que, mesmo de pé num canto discreto do quarto, ocupava muito espaço e atrapalhava a limpeza geral que fazia toda semana. Como a viúva pareceu ouvir a reclamação e nada contestar, a empregada tomou aquilo como anuência, e a estátua saiu do quarto e foi para um canto da sala de jantar.
No mês seguinte, os modelos estavam lindos como nunca. Os decotes, que ela como viúva não costumava admirar, estavam, apesar de quase ousados, com cortes deslumbrantes, e as roupas com um caimento impecável. E
enquanto ela olhava os modelos, o olhar do vendedor, como um veludo tépido, a acariciava e passeava pelo seu rosto e pelo seu pescoço, e ela sentiu que até no seu colo pousaria se ela estivesse usando um daqueles vestidos de decote tão bem acabado que os catálogos hoje lhe mostravam. Comprou um vestido de uma cor grafite bem suave e de decote discreto.
À noite, aspergiu-se com seus perfumes, beijou a estátua do marido, que agora vigiava a sala de jantar, e recolheu-se.
Nesse momento e nessa hora, o calor do olhar do vendedor sobre sua pele se reacendia e, como se fosse uma invisível tatuagem, colava no seu corpo e dali não saía. Andava sobre seu corpo, deslizava sobre sua pele, marcava caminhos tão suaves sobre ela, como se fossem raios de lua. E lhe visitava o colo e os seios que ela, de roupas de dormir, não podia lhe esconder.
Nesse entretempo, as exigências da decoração e as necessidades imperiosas de espaço físico na sala de jantar fizeram com que a estátua fosse para a cozinha, onde o senso prático da empregada e suas noções de elegância não mais lhe reconheciam a necessidade de trocar de ternos. Com o tempo, não fosse o medo da patroa, talvez até pendurasse nela um avental para enxugar ou lhe colocasse uma trança de alho no pescoço.
Numa tarde em que as amigas não vieram, veio o vendedor, ela teve de olhar os vestidos sozinha. E o rapaz a olhou nos olhos. E foi como se aquela tatuagem delicada e morna houvesse explodido dentro dela, e rios de larva lhe corressem pelas veias e lhe fizessem sangrar os poros. Eram negros, belos e profundos os olhos dele, como certos mistérios que povoam a existência.
Já mais de um ano se passara desde a chegada da estátua, que continuava imóvel e fria, tomava espaço na cozinha e incomodava a empregada com aquele olhar brilhante e fixo que a pobre moça imaginava dirigido às suas
partes enquanto trabalhava. E, por isso, como castigo, foi levada para um telheiro no quintal, onde ficou quase exposta às intempéries.
No dia em que a empregada comunicou o novo endereço da estátua à patroa, o rapaz havia segurado sua mão. E nela deixou tal ardência sobre a pele c tantos ruídos nos ouvidos que ela nada ouviu do que disse a empregada naquele momento e ainda durante vários dias.
A patroa também não percebeu - às vezes isso pode acontecer e não há quem tal coisa possa evitar -, as goteiras sobre a estátua no telheiro. Tampouco distinguiu a cor de limo e musgo meio verdes da cor do terno já meio apodrecido e se esgarçando, e de longe assim, não podia ver os cupins devorando as entranhas de seu marido.
Sem explicações, as amigas andaram faltando às reuniões, perderam um pouco o interesse na moda e na elegância, de modo que os dois puderam estar a sós naquela tarde em que os vestidos nem tanta beleza tinham e as jóias e os perfumes nada de novo apresentavam.
E ele chegou num terno muito bem cortado, de talhe até superior àqueles que o marido usava; e ela pôs seu vestido grafite, de decote quase generoso, e sentaram-se à mesa na sala de jantar. As folhas do catálogo passavam movidas pelo vento e era como se as páginas fossem brancas, pois nelas à
nenhum dos dois nada conseguia ver.
Ela lhe ofereceu um chá, e ele aceitou. Chamou a empregada e pediu o chá. E que fossem de pétalas de rosa, de flores silvestres, de uma seiva dos deuses que combinasse com isto que agora sentiam os dois ali na sala!
Alguns minutos depois, a empregada entrou na sala e cochichou ao ouvido da patroa para que o convidado não ouvisse:
- Patroa, faltou gás!
Ela se atordoou levemente, mas logo recobrou sua postura e disse, também quase segredando ao ouvido da empregada:
- Use o fogão a lenha do quintal!
— Mas não tem lenha! Respondeu a empregada.
- Use a madeira, essa que está sob o telheiro, respondeu a patroa, e voltou-se sorrindo para o rapaz.
E o homem pegou nas mãos dela, puxou contra si e beijou-lhe a boca com o mesmo calor e a mesma suavidade com que seus olhos tatuavam sua pele. E enquanto beijava, ela não percebia que uma das pernas da estátua começava a ser lambida vorazmente pelas chamas, enormes chamas, porém bem menores que aquelas que o beijo fazia arder no coração daqueles dois amantes.
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