"Assim, convido o leitor a se sentir também nessa casa de fantasia "
(Nivaldete Ferreira)

O coveiro
O COVEIRO
(Geraldo Maciel)
Agenor ganhava a vida enterrando mortos e, para a surpresa de todos, tinha um enorme medo da morte. Sabe-se lá o que pode existir, ou não existir, do outro lado desse muro de névoa que separa vivos e mortos! Morria de medo
só em pensar que um dia entraria nessa incerteza nebulosa que era o outro mundo.
Tinha fé, era cristão, mas, em certas horas e para certas coisas falhava um pouco sua fé nos dogmas. Não era ortodoxo. Tanto que no seu trabalho adotava certas práticas que, se descobertas, seriam suficientes para queimá-lo na fogueira dos hereges: por uma questão em parte filosófica e
em parte ditada pela necessidade, aliviava os mortos de certos pertences que, por esquecimento ou por vontade, os parentes deixavam que o morto levasse até sua última morada.
Segundo acreditava Agenor, a vaidade era contrária à fé, e lá para aonde iam, os mortos não precisavam dos anéis que eram esquecidos nos dedos, ou dos cordões de ouro, ou mesmo de relógios, esses, sim, uma completa inutilidade para quem ia para a eternidade, onde se espera que o tempo não passe; nem mesmo cruzes, rosários e crucifixos, principalmente os que eram banhados a ouro e — tinham pedras incrustadas, Agenor achava necessário deixar: com seus proprietários, pois seriam corroídos pela fome da E terra. Nem jaquetões, nem sapatos, camisas, cinturões,— deveriam ir para a mansão eterna, pois lá deviam viver como vivia São Francisco de Assis, o pobrezinho, ou como vivem os anjos, nus, cobertos somente por tecidos transparentes ou nuvenzinhas brancas.
Dentaduras também atrapalhavam a boa imagem das almas, e dentes de ouro eram, sem dúvida alguma, sinal de luxúria. Sapatos e botinas também não deviam ser necessários em um lugar onde nem no chão se pisa, já que flutuar, a se julgar pelos quadros e reclamos que são mostrados entre nós, é a condição de todos que lá moram. Depois, não fossem essas conjecturas sobre o outro mundo verdadeiras, ou fossem muito diferentes de como as imaginamos, tais vaidades de nada serviriam do mesmo jeito, razão porque o senso de justiça de Agenor mandava que tais apetrechos fossem recolhidos e vendidos longe para ajudar a viver um irmão carente aqui na terra.
Afora esse pequeno desvio profissional, seguia Agenor tudo o mais que mandava a ética e a contabilidade de sua profissão. Uma cova comum tinha seus nove palmos de comprimento, quatro de largura e os sagrados sete palmosde fundura. O que passasse disto, ou seja, sendo o finado muito gordo ou muito alto, requeria uma taxa extra, pois mesmo sendo a morte uma coisa meio sagrada, cavar covas cansa muito e deixa o corpo tão quebrado quanto trabalhar na agricultura ou carregar fardos às costas.
Nas horas de folga, quando resolvia espairecer tomando uma bebida, ele monologava, como se com isso fastasse de si o medo que sentia. E à medida que a cachaça ocupava certos nichos na sua cabeça, ele ampliava seu pensamento e, quando menos esperava, estava a devanear. Para ele cavar covas era como construir casas. As covas eram mais simples, menos definitivas, sua construção mais solitária e somente requeriam do construtor solidão e suor. As casas eram mais espaçosas, mesmo as mais pobres, e sua construção não dispensava segredos e técnicas. Como coisas
humanas, as duas tinham suas diferenças e hierarquias.
No fim de tudo, Agenor via a vida como parelha da morte. As duas como gêmeas, embora em certas coisas fossem muito diferentes.
Costuma-se dizer que a morte iguala a todos. Mas para ele não era bem assim. Bastava olhar. No cemitério as covas dos pobres são diferentes e longe da dos ricos. Há tanta diferença entre mausoléus e covas rasas, como há entre palacetes e casebres. Os mausoléus são vaidosas construções. Estão para as covas assim como as mansões e os palacetes estão para os barracos, os casebres e as palafitas.
Mausoléus necessitam projeto, materiais nobres, metais, mármore, placas, adereços e anjinhos; volutas, colunatas, arcos nos seus mais diversos tipos e espécies. Impõem o uso de raras profissões. À cova, não. É rasa, lisa, simples. Só precisa de aprumo e precisão de medidas: sete palmos. O resto é o finado.
Agenor, pobre coveiro, não tinha a sua própria casa. Solteiro, arranjava-se no quarto de despejo do cemitério, pois a vida não é tão definitiva a ponto de merecer os esforços de ter uma casa própria, e o salário muito pequeno
para financiar tal extravagância. Sua cova seria aquela que em todo cemitério está sempre aberta, à espera de quem chegue de improviso, que muitos acham ser organização e capricho do coveiro.
Agenor não esperava muito desta vida, além do que já tinha. Da outra, da qual morria de medo e, muitas vezes, não queria crer que existisse, guardava distância. As únicas coisas que Agenor realmente tinha eram o medo da morte e algumas economias, estas reservadas para os momento difíceis.
Tinha medo da morte, não dos mortos, pois estes não eram de ficar incomodando quem trabalhava como ele. E também não saiam dos seus cubículos. Ou Porque ali só ficava a parte humana e carnal, indo a outra, se houvesse, mais etérea e invisível, para moradas e cubículos mais acima, ou poque essa parte eterna e misteriosa em que tantos acreditam não passa daqueles fogos-fátuos azuis, daqueles flatos azulados de pessoas mais gordas que regularmente sobem como balões, muitas vezes provocando sustos com aquela dança gasosa tão inesperada. As almas, tão faladas e
tão temidas, se existissem, não andavam por este condomínio.
Agenor temia não ter quem lhe enterrasse com respeito e, às vezes, sonhava levando terra na cara, coisa muito temida pelas pessoas, muito embora morto não sinta falta de ar; pouco se incomodava com os trajes que deveria vestir depois de morto, mesmo sabendo que seriam roupas mal ajambradas, feitas por alguém que, apesar do bom coração, mal une a boa vontade com a disposição e nada mais. o que ele mais temia, na verdade, era ter que prestar contas dos pertences dos seus mortos, se o que dizia a sua religião fosse mesmo verdade. Por conta disto, tinha pesadelos, sonhava acordando com a terra na cara, sufocando, sentindo aquele gosto estranho na boca, o pó entrando pelo nariz, a falta de ar, a vontade de gritar, de mexer, e nenhuma mínima parte de seu corpo lhe obedecendo. Mas sempre que acordava e sentia que estava vivo, apesar de coberto de suor, sorria.
Deixando de lado seus pesadelos, Agenor era um homem prático e organizado. Sabia ler um pouco, escrever outro tanto e, não fosse a conta de mais de duas parcelas, arriscava até uma multiplicação. E isso o ajudava o seu ofício. Primeiro, porque ele mesmo anotava no livro de óbitos que havia no cemitério o nome, idade, nascimento e profissão dos defuntos; segundo, porque tinha ele seu próprio caderninho de anotações onde, após criteriosa análise de alguns dados como idade, condição financeira, estado de saúde e outros indicadores, além do próprio faro para detectar essas situações, anotava o nome daqueles demais idade, doentes, alquebrados, pessoas que mais cedo ou mais tarde, geralmente mais cedo, viriam fazer parte da sua clientela.
Era tal seu apuro e capacidade de análise que só em ocasiões muito raras havia erro na sua lista. No máximo, alguém se adiantava de seu colega de lista, mas questão de um pulo só. Nada que desmoralizasse sua contabilidade. No mais, sua lista era como uma lista de condenados. Estar
nela era como uma sentença de morte.
Com isto Agenor tinha sob controle todo o seu orçamento, calculando com cuidado as entradas e tentando avaliar os possíveis extras, de modo a acomodarem as despesas que também eram controladas.
A imaginação, como a ciência, parece não ter limites. Por isso Agenor resolver ampliar sua capacidade de previsão. Sua lista, que antes só acomodavam aqueles reconhecidamente nas últimas, passou a incluir pessoas com leves achaques, com certos incômodos sazonais, até chegar a
a pessoas ainda gozando de boa saúde, senhoras dispostas e
de tez corada, gente que ninguém poderia adivinhar que
passaria dessa.
Com este procedimento sua lista crescia e enchia folhinhas de sua caderneta, como se ele estivesse anotando ali suas necessidades. Quando de sua lista diminuía um, ele acrescentava dois. E tudo era tão preciso e natural que parecia científico ou misterioso. Parece que à morte era sua
empregada ou montara com ele uma sociedade.
Mas, como em todo comércio e empreendimento há altos e baixos, começou um período em que Agenor não conseguia achar ninguém em condições de figurar em sua lista. Não estranhou porque até em grandes casas comerciais havia desses mistérios sazonais. Mas continuou a dar baixa naqueles que a morte visitava. Graças a Deus, nesta parte a sua profissão não sofreu abalo. Continuou a riscar a lista toda semana, mas ficou preocupado com o fato de não conseguir acrescentar o nome de mais ninguém.
Numa manhã qualquer e comum como toda manhã de um dia da semana, depois de enterrar mais um de sua lista, Agenor sobressaltou-se. Notou que a lista já quase tomara toda a sua caderneta e que, riscando o nome do defunto desse dia, só lhe restava o verso da última folha.
Como o recém-enterrado era o último da última folha de sua caderneta, fato que ele não tinha notado até aquele momento, ele quis ver quem seria o próximo e virou a folha. Lá estava seu nome, Agenor Gomes da Silva, ali colocado por ele mesmo, na última página, para identificar aquela cadernetinha de sua propriedade. Arrancou a folha, amassou-a entre as nãos e atirou-a longe. Mas ele sabia que isto de nada adiantava. Ele seria o próximo. Como também sabia que aquilo era irremediável, pela primeira vez na vida não teve medo da morte.
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